7168352611203709 Running & Medals - Artigos - Maratona de Inverno do Rio Han

MARATONA DE INVERNO DO RIO HAN (SEUL)

José Pedro Baptista

Autor do blog Correndo com Zátopek

Data de publicação: 16/02/2018

Realizou-se no dia 11 de Fevereiro a 제 15회 동계풀코스 마라톤대회, que é como quem diz a 15.ª Maratona de Inverno do Rio Han, em Seul, com várias opções: os 42.2 Km da prova completa, 32.2 Km, Meia Maratona, 10 Km e 5 Km. Escolhi a meia maratona, a minha distância preferida, mas até podia ter optado pelos 32.2 Km, prova com bastante adesão por preceder em um mês a Maratona de Seul, funcionando como um barómetro da condição física dos homens e mulheres que, como eu (sim!), irão correr a prova de estrada mais participada do país.

Era uma corrida que se afigurava difícil, não pelo percurso mas pela certeza de tempo frio conjugado com vento forte. As expectativas confirmaram-se e obrigaram os corpos a fazerem-se acompanhar de pesados adereços que, principalmente na protecção das pernas, tendem a dificultar uma locomoção suave.

Foi a minha segunda prova na Coreia, o que me permite estabelecer alguns pontos de contacto no que toca ao estilo das organizações. A parte que mais anima a minha faceta ambientalista acontece antes da inscrição: em vez de ser incluída no preço uma t-shirt técnica (uma espécie de Roly ou Makito com uma impressão feita às três pancadas, por norma), é-nos dada a possibilidade de comprar o "souvenir" da prova. Nesta, quem quisesse o casaco de corrida almofadado, pagava mais 22 € e ficava com uma peça com alguma qualidade que, comprada numa loja, custaria, pelo menos, o dobro. Uma ideia a importar.

Dois dias antes da corrida, os inscritos receberam em casa um envelope com o dorsal e alfinetes, o chip (de enrolar nos atacadores) e um revista sobre o evento, com as boas-vindas dos organizadores, todos os detalhes sobre as provas e mapas dos percursos, a lista de prémios, a lista dos corredores (cada nome coreano ocupa três caracteres – arrumam-se todos, com jeitinho, em três páginas) e muita publicidade... da boa! Nunca me babei tanto a ler anúncios: Vladivostok Ice Run, Maratona de Guam... entre outras, mais à mão, mas não menos aliciantes.

Por ser uma corrida com pouco mais de 1000 atletas espalhados por cinco distâncias, não foram necessários blocos de partida. A cada cinco minutos, o velhote do gongo dourado (com idade para ser casado com A Amiga Olga) dava sinal de partida da vaga seguinte. Nos entretantos, mandaram-nos massajar o corredor que estivesse à nossa frente, um ritual cumprido sem malícia.

Os abastecimentos foram bastantes, a ponto de ter ignorado um ou outro ponto. A água gelada, servida em copos de papel (boa ideia) com grainhas de gelo à superfície, não era convidativa. Mais calorosos foram os voluntários, que iam transmitindo força ("파이팅!", ou seja, "pai-ting!", isto é, "fighting!") à passagem de um estrangeiro, isolado, mas longe da liderança. O tempo frio e ventoso e o percurso, inteiramente feito pela ciclovia junto ao rio, privou-nos do apoio dos 25 milhões de habitantes da quinta maior metrópole do mundo. Por outro lado, naquelas horas gozámos da maior concentração de médicos (ou entendidos em primeiros socorros, vá) por cada 1000 habitantes, pois os pace makers, que eram muitos, levavam bordadas às costas uma cruz vermelha. Quem sucumbisse ao frio e acabasse junto à berma, encaracolado, era prontamente assistido.

O pós-corrida teve um pormenor engraçado. Para além de, tal como em Portugal, nos darem a medalha, água, fruta, um docinho e publicidade de outras provas (sempre achei o timing mau, porque aquele par de minutos depois de cortar a meta é o único momento em que não tenho interesse absolutamente nenhum em saber de provas...), havia um balcão onde uma impressora imprimia os diplomas com o tempo oficial da prova.

Em casa, a corrida continuou pelos dias seguintes no site, com mensagens dos organizadores a agradecerem a nossa presença, a lamentarem o frio e vento, a pedirem desculpa por não terem servido sopa de tofu depois da corrida conforme estava programado (o carro tinha tido um acidente e não chegou a tempo), a avisar que o corredor com o dorsal x se tinha esquecido de levantar a medalha... enfim, uns queridos!

Correr na Coreia é como correr em Portugal, ou noutro sítio qualquer – uma perna à frente da outra e assim sucessivamente – mas é engraçado comparar a proximidade entre a organização e os "clientes". Concluo que há coisas que podemos ensinar-lhes e outras que podemos deles aprender. Sem querer generalizar, mas generalizando, os organizadores em Portugal podiam beber um cálice de humildade "made in Korea". Em sentido inverso, aqui mandava prender os desgraçados que fazem os sites, em que é mais difícil registarmos-nos numa corrida do que navegar pelo Portal das Finanças... Uma fusão entre o que se faz bem cá e aí seria o ideal.

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