7168352611203709 Running & Medals - Artigos - Maratona de Seul

MARATONA DE SEUL

José Pedro Baptista

Autor do blog Correndo com Zátopek

Data de publicação: 06/04/2018

No dia 18 de Março, juntaram-se cerca de 20.000 pessoas para a Maratona de Seul, corrida IAAF Gold Label e considerada uma maratona de segunda linha, logo a seguir às que compõem actualmente o "World Marathon Majors" (Boston, Nova Iorque, Chicago, Londres, Berlim e Tóquio). Com prémios monetários apelativos e um percurso relativamente plano, atrai todos os anos nomes sonantes das longas distâncias. Quando se juntam Tadeses, Kiprops e Kiprutos, já se sabe que a coisa é séria.

Na Coreia, a todas as corridas se dá o nome de Maratona – o que varia é a distância. Assim, nas primeiras vinte edições (de 1931 a 1963, com um longo interregno para a II Guerra Mundial e Guerra da Coreia) percorriam-se apenas 24 Km. Só a partir de 1964 é que começou a maratona "a sério", pelo que em 2018 se realizou, na realidade, a 55.ª em vez da publicitada 89.ª. Mas, 2018 menos 89 dá 1931. Então e as guerras? É uma daquelas coisas difíceis de perceber: de 1941 a 1953 realizaram-se maratonas... em espírito.

Um grande atractivo para mim (como se não bastasse a prova por si só) era pisar a mesma pista que a nossa querida Rosa Mota em 1988. O percurso não era idêntico, porque a versão olímpica começou e acabou no estádio. Para acolher os muitos milhares de participantes, o tiro de partida ecoou em Gwanghwamun, às portas do Palácio Real, ex-líbris da cidade.

Nessa grande praça, tive a noção da tarefa monstruosa que é organizar um evento desta dimensão. Havia um posto com dois voluntários por cada 200 atletas para a recolha dos sacos previamente estampados com o número do dorsal (recebidos em casa na semana anterior). O bengaleiro fechava trinta minutos antes da partida e, por isso, quase toda a gente levava uma camisola velha para se manter quente até à hora da partida. Chegado o momento, cuspiram-se os excedentes para lá das barreiras – tudo o que se aproveitasse seria posteriormente doado, o que é comum em maratonas de grande envergadura. Apesar de todas as minhas camisolas serem velhas, uso-as todas e acabou por ser um casaco de inverno antigo (que a minha mulher insistia estar encardido, apesar de a mim me parecer apresentável) o sacrificado. Enquanto voavam camisolas, eu tentava convencer quem estava ao meu lado a passar de mão em mão um casaco demasiado pesado para ser atirado. Foi difícil, mas acabou do lado de lá.

Antes, durante o aquecimento, tive o privilégio de ver de perto alguns atletas africanos, homens e mulheres, a aquecerem com gorros e fatos de treino. São magros, como na televisão, e têm a particularidade das pernas serem desproporcionais ao tronco (mais perna, menos tronco), sendo mais baixos do que parecem no ecrã.

A partida estava dividida por blocos de "A" a "E", cada um com milhares de pessoas, e umas poucas dezenas de corredores de elite e "Masters" (asiáticos) à frente. As condições climatérias não podiam ser melhores: 5 graus, nublado (sem chuva), pouco ou nenhum vento, humidade média e qualidade do ar boa para a época do ano. O ambiente era de alegria e comunhão. O grupo A, onde estava, tinha pouco de exclusivo, porque englobava atletas sub-3h40 em diante. Éramos muitos, mas as avenidas largas permitiram que cada um corresse sem entraves nem ziguezagues desgastantes.

Os primeiros 20 Km foram cumpridos em idas e voltas a bilhares muito grandes mas fininhos, saltando de avenida em avenida, como numa fase adiantada do jogo da serpente dos telemóveis antigos. Como cada recta durava vários quilómetros e Seul é uma grelha sem grandes surpresas cénicas, passámos os olhos por centenas de prédios, milhares de andares e dezenas de milhares de janelas com ares condicionados pendurados. O avistamento de uma fábrica devoluta, ou os ecos dos mercados de Domingo que avançavam por ruas perpendiculares, mexiam com os sentidos, numa altura em que o apoio do público era ainda esporádico e espontâneo.

 

Depois do "aquecimento", e com o avançar da manhã, começaram a aparecer mais pessoas na rua, ora organizadas em bandas e coreografias, ora familiares e amigos de corredores. O cenário mudava pouco, mas no imaginário dos bravos maratonistas perspectivava-se a travessia da grande ponte, que os levaria para o outro lado do rio. Ao Km 26, ao passar um pequeno afluente do Rio Han, e apesar dos 10 quilómetros que nos separavam da tal ponte com o nome da freguesia do estádio que nos esperava, a contagem da distância deixava de ser ascendente: faltavam só 16 quilómetros (que estranho "só"!).

Foi interessante notar que todo o percurso estava ladeado de polícias de tantos em tantos metros de costas voltadas para a corrida. Alguns, oportunamente, cortavam o acesso automóvel; outros mandavam recuar quem, num momento de excitação, se atrevia a pisar o alcatrão sagrado; outros (mais jovens, provavelmente da academia) olhavam para a parede à sua frente, onde nem uma janela havia de onde pudesse saltar um hooligan para travar as nossas marchas triunfantes.

À medida que nos aproximávamos da ponte, o apoio subia de tom, com populares a oferecerem pedaços de laranja, bebidas doces, biscoitos e outras coisas a quem esticasse a mão. Por falar em abastecimentos, impressionou-me a quantidade de mesas em cada posto de abastecimento, sendo possível beber três copos de água ou passar cinco esponjas pelo corpo sem ter que baixar o ritmo. A cada cinco quilómetros, passávamos por corredores intermináveis de mesas e voluntários a trabalhar a grande velocidade para que nada faltasse. Para além do isotónico, houve também banana, "choco pie" e sprays para desprender as pernas.

Apesar de haver muitas corridas por ano em Seul, muito poucas cortam estradas e só três cortam pontes de relevo. Foi nesse lugar, com 1000 metros de comprimento, normalmente vedado a peões, que se concentrou mais gente. Viveram-se momentos de euforia, apesar do relógio ir ainda no Km 35. Apesar do dia cinzento, o rio a toda a volta e as aparições, ao longe, do Estádio Olímpico e, de perto, da monumental Lotte Tower, constituíram um raio de luz celestial; sol de pouca dura, porque as nuvens voltaram a adensar-se à medida que o corpo de cada um, em acelerada decomposição, pedia clemência. Desde os primeiros quilómetros que se via um ou outro atleta em dificuldades na berma, mas aqui as vítimas da exaustão multiplicaram-se, no que parecia ser uma praga contagiante. Houve quem parasse, quem andasse, quem corresse à velocidade a que se anda...

Os últimos cinco quilómetros foram penosos, mas o ânimo regressou quando se distinguiram os anéis olímpicos pendurados no estádio. Quando comparado com as excentricidades que agora se erigem, o estádio parece saído dos anos 80... o que faz todo o sentido, porque foi estreado em 1984. Muito betão, pouco folclore; é uma peça sóbria, que impõe respeito e o local ideal para dar por concluída tão mítica viagem. Lá dentro, as bancadas estavam vazias, mas quando fiz a derradeira ultrapassagem à entrada para os 100 metros finais, senti o clamor de 70.000 vozes, dando as boas-vindas a um amigo da Rosa e mandando saudades para Portugal.

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