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MARATONA DE SEUL

José Pedro Baptista

Autor da página Correndo com Zátopek

Data de publicação: 24/03/2019

(Aviso: Este relato é tão, ou mais, comprido que a distância percorrida, mas acho que vale a pena. Não recomendado a quem acompanha a actualidade através do Twitter.)

 

Definição do objectivo de tempo

Para situar quem não está a par do meu trajecto na prova-rainha (todos, menos eu e os infelizes que me aturam cá em casa), a 91.ª edição da maratona em questão marcou a minha terceira participação. A estreia tinha sido há precisamente um ano, pelas mesmas avenidas, na 90.ª Maratona de Seul e, a segunda, em Novembro passado, na 20.ª Maratona de Joongang. Na estreia, tinha conseguido 3:07:21. Oito meses mais tarde, retirei dez minutos e atingi confortavelmente um objectivo que, em tempos, pensava ser o máximo a que poderia aspirar: quebrar a barreira das 3 horas, com 2:57:18. Para esta, sabendo que levava uma bagagem de treino superior, tracei três objectivos, em ordem crescente de dificuldade:

1) Sub-2h55
2) Abaixo de 2:54:23 (recorde mundial do escalão M70, do Gene Dykes… bater em velhinhos)
3) Acima de 2:52:30

O terceiro objectivo parece estranho, mas explica-se facilmente. Segundo o manual do Jack Daniels, a intensidade dos treinos (tempo/Km a vários ritmos) que vinha fazendo permitiam-me sonhar com um sub-2h50. Mas, pela minha experiência, sabia que – ao contrário das outras distâncias onde, no meu caso, tudo bate certo – a previsão do tempo para a Maratona é inflacionado (ele trata-a como uma mera extensão da Meia Maratona, não como um bicho à parte). Nas primeiras duas maratonas, tinha ficado aquém do tempo equivalente aos ritmos praticados. Como as últimas semanas tinham tido treinos muito duros, sabia precisamente qual era o meu limite e onde estava o risco vermelho que não podia pisar. Abaixo de 2h55 tudo bem; abaixo de 2h50 (4:01/Km, durante toda a prova, sem vacilar), nem pensar; encontrei esse meio termo, 2:52:30 (4:05/Km), como uma barreira para me proteger do abismo.

 

Por me sentir mais qualificado, tanto em experiência de corrida como na de analista (como já repararam, passo bastante tempo a pensar nestes números), queria evitar traçar objectivos demasiado humildes e depois exceder-me “porque o corpo pediu” e entrar numa espiral perigosa, fora de pé. Defini como limite máximo do razoável não ultrapassar, em qualquer circunstância, os tais 4:05/Km a qualquer momento da corrida (a não ser que, perto do fim, estivesse em condições seguras de me esticar). Os treinos em ritmo de prova tinham sido feitos a esse ritmo (estimativa de 2:52:18), mas 42.2 Km sem quebras era pedir demasiado. Como tal, ao mínimo desvio para lá dos 2:52:30, tocava a sirene. Como tinha feito bastantes treinos no limite das capacidades, conseguindo sempre não desistir e abrandar o mínimo possível quando tinha que o fazer, sentia que este “atleta novo” podia fazer uma gracinha… neste caso, uma graçona, em split negativo, que é como me dá gozo correr e ainda não tinha, nos 42.2 Km, conseguido fazer (+2.32% e +0.23% nas primeiras duas tentativas).

 

Para não ter que consultar o relógio, tomar o gel e beber a água na mesma altura, levava os parciais de 5 em 5 Km, com intervalo mínimo e máximo, a começarem no Km 4 (ou seja, 4, 9, 14, 19, 24, etc.), tatuados no antebraço, um insólito chorrilho de números a marcar a minha determinação em respeitar o plano, nem que para isso o meu antebraço se assemelhasse ao de uma jovem promessa contratada ao futebol uruguaio. Tudo estava definido: por exemplo, ao Km 4 devia andar entre os 16:32 e 16:40. A margem entre o máximo e o mínimo permitia uma prova mais rápida ou mais lenta, consoante as sensações. Aos 39 Km, o acumular, split a split, das diferenças entre o mínimo e o máximo, dariam um intervalo mais amplo: entre 2:39:34 e 2:41:32.

 

Tantos planos, tão bonitos, tão pensados!

 

Da véspera à linha de partida

No dia anterior, obrei forte e feio depois do almoço. Não tinha dormido muito bem e à noite fiquei com sono cedo (muito raro, ainda para mais nestas circunstâncias). Às 22:00 adormeci, encantado. O problema foi que acordei duas horas depois. Entre a meia-noite e as 4:15 já não dormi mais, nem um passar pelas brasas… zero! Mantive-me quietinho, horizontal, até me levantar. Comi uma fatia de pão com queijo, uma maçã grande e uma banana pequena. Meti mais duas na mochila, um ovo cozido e a barra de cereais para comer mesmo antes da partida e saí de casa (frio e húmido, tinha chovido na véspera) a pé para a estação (não há autocarros até às 5:30), devagarinho para não perder energia, o mais próximo possível de “dormir”. Não subi escadas, nunca acelerei o passo e sentei-me, de olhos fechados, a ouvir o passar das estações até Gwanghwamun, o destino-partida. Moro longe, mas não era preciso apanhar o primeiro comboio… só que não suporto a ideia de não ver a corrida nascer, de não estar presente para viver aquilo tudo – “quero sentir tudo de todas as maneiras”, como Álvaro de Campos.

 

Ah! E também queria sentir se me dava vontade de largar umas caracoletas na retrete da estação. É que, à hora a que cheguei, não havia praticamente fila. Infelizmente, acaba por ser apenas uma tradição: sentei-me, esperei que as nalgas acabassem de falar com os micróbios e levantei-me, com uma mijinha a menos. Deu para vestir o equipamento e passar vaselina pelos sovacos, virilhas e mamilos (são de gato bebé, mas nunca fiando). Quando saí, já a fila para os três tronos tinha vinte metros e sempre a aumentar.

 

A mais de hora e meia do tiro de partida, tinha tempo suficiente para me preparar: entregar a mochila no bengaleiro, aquecer, comer a banana (o ovo, opcional), contar e recontar os gels e metê-los no bolso, ligar o GPS com antecedência, beber água, aliviar-me dela, trocar de ténis, tirar a fotografia de grupo, passar pelas pernas um creme quente, tagarelar como se fosse um gajo normal, que não está desvairado. Mas o ambiente da maior festa da corrida popular na Coreia tira-me o discernimento; andei atarantado, de um lado para o outro, a absorver tudo, sem conseguir decidir o que fazer e em que ordem. Estava a ficar maluco da cabeça...

 

O aquecimento foi feito com muita antecedência, de forma adequada mas com ansiedade. Nas duas semanas anteriores não tinha pisado alcatrão por causa da poluição e porque alguns treinos nem justificavam a viagem de comboio até à ciclovia. Na passadeira do ginásio a passada é mais suave, a locomoção é mais fácil (tapete a deslizar por baixo dos pés em vez de se dar "patadas" no chão, e ausência de vento/resistência do ar) e nem podia ajustar a inclinação para 1.5% para simular treino na rua, porque em nenhuma das máquinas essa opção funciona. Mas a cabecinha tinha treinado muito, com treinos martirizantes de +20Km com séries rápidas que testaram a paciência e deram fibra. Depois dessas duas semanas de ginásio, sentia-me que nem um animal enjaulado. A vontade de correr era muita e até no aquecimento tive que ter atenção para não me gastar.

 

Entretanto, apareceram os amigos e instalou-se um clima alegre, quase eufórico, um nervoso miudinho e muito fogo no cu. O dinamarquês de 42 anos, estreante na Maratona, mas com muitos anos a praticar orientação, apontava para o sub-3. O inglês, com PB de 2h59 em Osaka em Novembro, não atravessava um momento bom mas queria, pelo menos, repetir o sub-3. O americano, presidente do clube de corrida, também abaixo do seu potencial, previa 2h55 e queria poupar-se também um pouco para Boston, daqui a três semanas. Outro americano, militar, sub-3, ia encarar Seul como um treino para Boston. A fechar o trio-Boston, um galego de Noia mas com vida feita na América, que falava português, acima dos 50, também estava a preparar a histórica maratona. O alemão, que vinha de lesão, não podia sonhar em bater o PB de 2h31, mas tentaria um "Tokyo qualifier" para a Maratona com critérios de entrada mais exigentes (a par de Berlim) das seis provas que constituem a Abbot Majors. Por falar em humanos de outro mundo, antes da partida, troquei umas palavras com um rapazinho americano, baixo e magro, com um cabelo plagiado à Juventude do CDS-PP que ficou em 3.º na classificação geral (que exclui a elite), com 2:29. Também antes da partida, encontrei o meu grande amigo de 72 anos do ginásio, o velhote que fica sempre em 1.º nas corridas da treta (junto ao rio), onde às vezes também eu arrebato uns troféus de acrílico, cremes e arrozes.

 

Ambiente magnífico, música, gente a correr na rua de um lado para o outro, muita azáfama. A meia hora da partida, estava tudo tratado (a comida comida, o saco entregue, os ténis postos, etc.) menos uma ligeira vontade de me aliviar. À porta das casas de banho (muito poucas e dispersas, para uma prova desta dimensão) havia centenas de pessoas à espera, todos na calma porque a maioria começava do grupo E, pelo menos 20 minutos depois de nós. Não podia ficar à espera e comecei a circular. Encontrei outras pessoas a vaguearem por sítios esquisitos, atrás de tendas. Homens hesitantes, a olharem uns para os outros, a estudarem-se. Estaríamos todos a pensar no mesmo? No #37? Ou em dar uma boa mija?

 

Havia polícia por todo o lado, estávamos expostos, e íamos fingindo que aquecíamos até encontrar uma racha ideal. O problema não é tanto o xixi (os coreanos mandam coisas piores para o chão) mas uma piça ao ar livre, mesmo que imaginada, num país que tem vergonha do corpo. O mais corajoso chegou-se a um canto, despejou-se, e abriu-se a bexiga de Pandora. Felizmente não houve chatice. Leve e com as pernas a pedirem fogo, dirigi-me ao meu bloco de partida mais confiante que nunca.

 

Nesta altura a neblina matinal já não dava arrepios, ainda não soprava o vento que havia de levantar mais tarde, e estavam dois graus. Ensarsdinhados, ruidosos, expectantes, esperámos com alegria a nossa vez. Os primeiros a partirem foram os amigos africanos e a elite da Coreia. A seguir, uma espécie de VIPs, não necessariamente rápidos: gente com privilégios variados que não cheguei a perceber quais eram (afiliados em organizações desportivas, descendentes de veteranos de guerra, uma mistura de gente com capacidades muito diferentes). A seguir seríamos nós. Mandei fora o casaco (que o sogro tinha trazido das obras), já com muita gente a apertar à frente e atrás, sem espaço quase para dar pulinhos, lá à frente, no grupo A. Estavam comigo o "presidente", o galego, o americano militar, o inglês e o dinamarquês. Tirando o galego e o militar (por opção), tudo gente que queria sub-3.

 

Depois de uma eternidade e em menos de nada… 출발! Começa a corrida!

 

0 aos 10 Km: plano de corrida atropelado (em estado grave)

Apesar de começar do primeiro grupo (a seguir à elite e aos VIPs), é inquietante ter gente à frente. No princípio passamos e somos passados por muita gente. A confusão é geral e só depois de algumas centenas de metros é que as posições se clarificam um pouco. Senti-me no dever de me despegar do inglês e o dinamarquês deles logo no início, como se fossem uma doença lenta; seguiu-se o americano fora de forma. Aquele arranque cheirava-me mal, parecia que estava a abusar porque, para além dos amigos, ia a passar muita gente depressa demais, mas a sensação que tinha era que estava simplesmente a andar, ou a flutuar. Como o GPS não funciona bem no princípio (tinha 3:30/Km quando olhei para ele e sabia que isso não era possível), deixei-me ir; também era parvo estar a obrigar-me a travar, quando ainda por cima nem sabia exactamente a que velocidade ia. Ouvi o relógio apitar aos 1000 metros, vi que o valor médio continuava mentiroso, e tentei-me aperceber da marcação do primeiro quilómetro, que estaria por perto. Mas não o vi. Nem o Km 2, 3 e 4! Estava ainda muita gente à minha volta, ou então fui zarolho. Pelo ritmo médio do relógio ia bastante abaixo de 4:00/Km, mas o ritmo “live” variava entre o aceitável (quando o sinal não tinha interferências) e o absurdo (quando os prédios faziam das suas). A poucos metros dos 5 Km, ouvi ao longe o apitar dos chips a passarem pelo primeiro pórtico de controle. Quando passei pelo tapete, olhei para o cronómetro a medo e vi que ia depressa demais, para lá do limite máximo… e não era pouco: 20m12, ou seja, quase meio minuto mais rápido do que devia. Fiquei sinceramente preocupado, porque a continuar assim ia rebentar mais tarde (se mantivesse, acabava com 2:50, o que estava fora de questão).

 

Senti que tinha dado um primeiro passo rumo a um final difícil, mas as pernas continuavam a pedir gás. Tenho muita dificuldade em abrandar de propósito, meter travões quando me sinto bem, por isso redefini o meu objectivo até aos 10 Km: manter o mesmo ritmo, natural, tranquilo, mas tentar relaxar um pouco e passar pelo checkpoint seguinte com mais tempo de corrida – no mínimo, respeitar desta vez o tempo mínimo para aquele segmento sem entrar em grandes compensações (porque isso também é deitar abaixo trabalho feito). Lembram-se dos limites mínimos e máximos? Pois bem, arrumei logo a coluna da esquerda que levava no antebraço, porque os mínimos já tinham ido à vida, e concentrei-me em não fugir muito do tecto máximo. Aos 10 Km passei com 40m39, baixando um pouco a intensidade em relação aos primeiros 5 Km, mas ainda assim a desrespeitar a cábula. Continuava a distanciar-me do limite mais rápido (agora com 36 segundos de folga), mas senti que tinha corrigido alguma da euforia inicial.

 

10 Km à Meia Maratona: estocada final na prudência

Para nós, amadores, não é possível correr uma maratona com concentração absoluta do princípio ao fim e, numa altura em que o sol acariciava a cara e os braços, senti-me embalado (não esquecer o sono que, noutras circunstâncias, me atacaria àquela hora). O fresco era revigorante e mais revigorado fiquei com a toma da primeira metade do primeiro gel um pouco antes dos 10 Km. As condições atmosféricas ideais e a primeira papinha doce da manhã puseram-me nas nuvens. “Isto afinal é fácil”, pensaria o inconsciente que não soubesse o que o esperava lá mais à frente. Esse gajo, em parte, chamava-se José Baptista: bem disposto, a ultrapassar gente constantemente (muitos deles VIPs do bloco anterior), sempre em progressão. Até aos 25 Km o percurso faz-se de idas-e-voltas, como as do jogo da minhoca dos Nokias antigos (quando a minhoca ocupa o ecrã quase todo). Mas o corredor não se apercebe desse traçado, porque os "retornos" contornam quarteirões largos. Olhando para o lado, às vezes via-se o povo (grupos B, C, D, E), do outro lado, a vibrar para a frente. No meu sonho, aquela massa humana parecia a emissão uma televisão antiga sem antena, quando faz "chuva", mas às cores.

Voltando ao Km 10. O gel fez o seu efeito e, se me sentia bem, agora voltava à estaca zero do cansaço. Deixei-me levar, em transe, pelas rectas para oriente, com o sol de frente, e mais consciente quando virava para o ocidente, com um brisa ligeira a acordar o corpo. Nessa alegria tranquila, voltei a abusar um pouco, com um parcial de 20m13, quase idêntico ao primeiro, e agora já levava quase um minuto de avanço em relação ao planeado. Com a outra metade do gel no corpo (tomei seis metades, de 5 em 5 Km, dos 9 aos 34 Km, e um mini-gel aos 38) começou a ouvir-se um diálogo interior: o Professor Castra-Pilas avisava, "voltaste a fazer merda, vais pagar por isso!”, ao que respondia o menino Zequinha, “mas professor, eu não sinto nada de mal... não se preocupe, eu cá me oriento..." e assim foi, levando o menino rebelde a sua avante (o Excel estava em casa a descansar, o Zequinha é que estava a correr), fazendo os 5 Km seguintes ao mesmo ritmo e passando pelo tapete dos 20 Km com 1m15 de folga. À superfície, e quase a queimar a marca da Meia Maratona, tudo na mesma: percurso sem grandes oscilações, pernas ainda boas, sempre a ultrapassar gente, com naturalidade. Por outro lado, havia ali qualquer coisita, um avistamento de sensação, mas também era natural que assim fosse, com quase metade da prova no corpo.

Alguns minutos mais tarde, o checkpoint da Meia Maratona: 1:25:05. Seria uma excelente meia maratona há alguns meses (em Abril do ano passado tinha ficado maravilhado com uma um pouco mais lenta) e era uma marca que, a dobrar, me dava 2:50:10. “Queres ver que… com jeitinho, talvez um sprint nos últimos 400 metros e um ou dois quilómetros acima da média, chegas às 2:49. Já só falta metade, não sejas corta-tusa!” Esta ideia absurda passou-me mesmo pela cabeça. Reflectindo, a frio, vejo que foi uma alucinação de quem dormiu pouco ou nasceu ontem. A duração longa da maratona é um perigo: há muito tempo para pensar, muita oportunidade para nos estragarmos. Mas as ideias patetas tanto entram, como saem, da cabeça ao ritmo a que as pernas dão de si.

 

Meia Maratona aos 30 Km: a crazy little thing called ”cansaço”

Recapitulando: o homem perde horas a fazer um plano, ao segundo, que contempla um cenário em que abusa na intensidade inicial e impõe limites máximos a cada 5 Km... excede-os em todos os pontos de controlo e entra na segunda metade da corrida com o relógio a marcar 3:59/Km (sabe que é treta, na realidade estava mais ou menos a 4:02/Km). E o que faz o primeiro classificado da categoria “números escrevinhados no corpo” a partir dos 21 Km? Pensa que está tudo bem, que só falta metade e que as pernas continuam boas (não como há uma hora, mas muito razoáveis ainda). Que tal ter juízo, tentar descomprimir um pouco para restar alguma coisinha quando chegar aos trintas-e-tais? Não. O diabo gritou, "estás a 6 segundos de distância das 2:49:59, campeão! Lembra-te que só fazes outra para o ano! Aproveita! Coragem!” Era uma loucura, mas se me sinto bem e se gosto tanto de splitsnegativos, de acabar a galgar, porque não encarar a segunda metade, desde logo, com espírito de conquista, passar uma malagueta pela língua e avançar, firme, com a meta na mente? Estava claramente confuso. Não era uma confusão causada pelo cansaço, mas pelo bem-estar e bazófia sem cabimento. O bom senso recolheu-se, exausto, e ganhou a parvoíce!

 

Foi assim que, dos 20 aos 25 Km, registei o parcial mais rápido: 20m02. No entanto, quando passei pelo “checkpoint” e me apercebi do feito, não me senti inteiramente feliz. O caminho já não me parecia tão natural e fácil. Havia ali qualquer coisa, uma pequena nuvem. Era o princípio, tímido ainda, do cansaço a dar-me umas festinhas nas pernas. Ainda não era razão para alarme, porém. Segui com a mesma toada (julgava eu) e foi antes dos 30 Km que comecei a antecipar um pequeno inferno. Primeiro, aos 27 Km, quando costumo pensar que "só faltam quinze", essa distância era um “ainda” e não um “só”. Depois desse carolo, confirmaram-se as suspeitas: as coxas, junto aos joelhos, começaram a ficar infiltradas com areia húmida. À passagem dos 30 Km, já consciente das dificuldades que me esperavam, confirmei o declínio nos números, com o split mais lento: 20m27. Pelo esforço percepcionado (em franco crescimento), essa marca era pouco convincente. Continuava a correr perto do limite máximo programado (4:05/Km), mas era aconselhável relaxar um pouco, até porque a folga em relação ao objectivo geral era larga.

 

30 aos 40 Km: inferno, perseverança e recompensa

Na Maratona de Novembro, a passagem aos 30 Km tinha-me provocado uma sensação de enorme euforia por me sentir pujante (e mesmo assim sofri alguns minutos antes dos 40 Km); desta vez o cenário invertia-se. Como conseguir acabar a prova sem, por um lado, ter que abrandar demasiado e, por outro, sem acabar por rebentar e ter que desistir ou andar (tenho horror a andar)? Passou-me pela cabeça as pessoas a seguirem-me pelo live tracking, os posts em fóruns sobre corrida com conselhos carregados de números e médias com três casas decimais, os massacres perpetrados em populações inocentes (incluindo mulheres e crianças que nunca correram) sobre ritmos e estratégias de corrida... tanta sapiência e preparação, para me lançar ravina abaixo!

"Pensa lá, 'são só doze!'”, mas não estava a pegar. Ocorriam-me só as dificuldades do ano anterior na ponte (Km 37, e até essa estava longe!), ventosa e interminável para quem vai moribundo. Entretanto, sentia os pequenos declives como muros. Apesar de tudo, continuava a ultrapassar gente constantemente, o que reforça a ideia que tenho que 90% das pessoas (mesmo aquelas que fazem tempos respeitáveis, como eram aquelas por quem estava a passar) não planeiam bem os ritmos. "Olha quem fala!", ri-se uma voz interior – mas é mesmo verdade: as pessoas têm bastante menos autocontrole (ou falta de noção das suas capacidades) do que eu...

Dos 30 aos 35 Km registei 20m42. Parece uma diferença pequena, mas senti-a bem nas pernas (cada vez mais pesadas) e custou a digerir; ainda me sentia gozado, humilhado pela ideia do split negativo. Impus como objectivo imediato não deixar cair a média. Na ponte estava um grupo do clube de corrida a tirar fotografias e a torcer por nós e eu queria chegar lá inteiro e com dignidade na postura física. Foram 10 a 15 minutos intermináveis, de grande sofrimento, em que as pernas não estavam somente cansadas, mas a prender bastante. As chicotadas que lhes dava para continuarem resultavam não em projecção horizontal, mas o levantar dos joelhos mais alto (ou assim me pareceu). Parecia que estava a perder a batalha e a cada 50 metros a mente pedia para que chegasse o fim. A subida para o tabuleiro da ponte foi horrível, mas havia bastante gente, incluindo uma mãe e filho com aquelas mãos grandes de borracha na berma; eu nem sou muito dessas coisas, mas aquele “high five” soube-me muito bem e distraiu-me durante alguns metros. Pouco depois, a malta do clube de corrida, mas com o sol nos olhos e a cegueira do cansaço quase nem os vi. Mesmo assim, deu para ouvir ao longe um "go Ba-p-tis-ta" que me deu outro empurrão. Fora estes pequenos oásis, tudo foi miséria, incluindo ver muita gente a caminhar, ou encostada ao passeio (até um gajo que ia à minha frente a desistir de repente e eu ter que quase parar – parar é morrer – para me desviar). Foram visões que, por um lado, meteram impressão mas, por outro, espicaçaram-me: não me podia acontecer o mesmo.

Sem me querer gabar (até porque não sei porque parava cada um dos atletas), orgulho-me de ter aguentado. Sofri, vi demónios, mas não entrei em pânico. Lembrei-me dos treinos difíceis, alguns deles praticamente provas a solo: ao frio, sozinho, com vento contra, a ter que me despachar para depois ir trabalhar (de pé), ou para apanhar o último comboio para casa. E, agora, no grande dia do ano, faltavam 5 Km e não podia vacilar. Sabia que me estava a arrastar, mas ao mesmo ritmo (razoável) do parcial anterior.

 

40 Km à meta: sofrimento recompensado e euforia

Quando chegou o último tapete, dos 40 Km, ganhei nova vida ao ver que só tinha perdido dois segundos (20m49) em relação ao anterior. Tempo total abaixo de 2h43, extraordinário, para quem corria diminuído física e psicologicamente há três-quartos de hora. Tinha contornado o muro!

Durante a caminhada pelas trevas, tinha percebido que a bebedeira dos 2:49 tinha sido uma imprudência difícil de explicar. Por outro lado, a não ser que tivesse que parar, um tempo abaixo das 2:54:30 também estava garantido. A questão agora, ao Km 40, era perceber se ia para além do tempo de sonho de 2:52:30, ou se ficava dentro dos limites que tão sabiamente tinha previsto.

A 2.200 metros do fim, oscilei entre a realidade (pernas desfeitas) e a euforia da aproximação ao parque olímpico. Depois de tanto pedalar em avenidas com seis a dez faixas de rodagem, as curvas apertadas anunciavam que o fim estava próximo e as ruas ladeadas de gente foram um bálsamo para o corpo e mente. Até que… olhei para a direita e me vi a correr paralelamente ao Estádio Olímpico, triunfante e magistral – ele, o estádio e eu, o corredor (não é bem assim… anda por aí uma filmagem no Youtube de uma câmara fixa, ao Km 41.5, que mostra que o que sentia naquele momento não tinha correspondência física).

 

Pouco antes de entrar no estádio, a fazer conta com 400 metros e a olhar para o cronómetro, percebi que ainda era possível entrar no minuto 51. Era preciso uma cavalgada constante. Depois de 42 Km na rua, a pista parece uma miniatura e uma volta rápida fácil de fazer. Tentei elevar a concentração e acelerei, mas a mudança engasgou. Já não tinha condições, por muito boa vontade que tivesse, para fazer uma volta inteira a esgalhar. Cheguei aos 3:33/Km no melhor momento, mas passei a meta com 2:52:01.

 

Quando parei depois da meta, percebi o estado em que estava: um caco humano. Imaginem um coxo das duas pernas, demente, que não devia beber mas perde-se quando, por maldade, os jovens da tasca lhe dão vinho. Assim andei eu, às voltas, a ganir “alhadas” intercaladas com abraços e agradecimentos aos que chegavam, igualmente trucidados. Muita gente a chorar – eu não, porque a exaustão não mo permitiu, mas senti vontade.

 

Um pouco depois, chegou o presidente do clube, o tal que está fora de forma, com 2h57. Alguns segundos depois, o dinamarquês, estreante, também com 2h57. Depois, o inglês, que repetiu a marca de Osaka, com 2h59. Final feliz para todos, com sub-3. O alemão, mesmo diminuído, fez 2h44 e tem bilhete para Tóquio. Muitos abraços, muita alegria, muita vontade de beber água depois do enjoo dos gels, uma linda medalha ao peito e mais uma ida à Grécia Antiga, a terceira, que me abre o apetite para atacar o sub-2h50 numa próxima oportunidade.

 

Os números da prova:

 

Objectivos:

A: sub-2h55 (4:08.8/Km) ✓

B: 2:54:23 (4:08.0/Km) ✓

C: 2:52:30 (4:05.3/Km) ✓

 

Tempo final: 2:52:01 (4:04.6/Km)

Half split: 2.13% (1:25:05, 1:26:56)

Classificação: 172.º (exclui elite)

 

Atletas sub-3h (exclui elite): 504 homens, 12 mulheres

 

Vencedores:

Homens - Thomas Kiplagat (Quénia): 2:06:00

Mulheres - Desi Mokonin (Bahrein): 2:23:45

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